Você já parou para observar seu filho desenhando? Aquele momento em que ele segura o lápis com firmeza, concentra-se intensamente e cria formas que, aos nossos olhos adultos, podem parecer apenas rabiscos, mas que para ele representam famílias, castelos, animais, dentre inúmeras outras coisas?
Esta prática pode ser muito útil para a educação e desenvolvimento infantil, em que a criança desenvolve a criatividade, a cognição e a coordenação motora, mas é preciso ter cuidado. Descubra neste artigo como vocês, pais e demais educadores, podem permitir de maneira adequada o desenho livre.
O Que é o Desenho Livre e Por Que Ele É Diferente
O desenho livre é aquele que nasce da inteligência e da imaginação da criança (ou de ambos), sem interferências adultas, sem modelos a copiar e sem expectativas de resultado. Diferente dos desenhos para colorir ou das atividades direcionadas, o desenho livre coloca a criança como protagonista da criação. Ela escolhe o que desenhar, como desenhar e quais cores usar.
É melhor deixar uma criança desenhando livremente do que deixá-la assistindo TV ou assistindo alguma coisa em outro meio digital. Os pais muitas vezes podem cair na ilusão de achar que colocando a criança diante desses aparelhos digitais, ela possa se acalmar. No momento em que ela estiver usando esses meios pelo menos a sua imaginação será agitada e no futuro a criança pode sofrer consequências muito negativas, como por exemplo ter mais agitação.
Isto não significa que não se possa usar esses meios, mas eles devem ser usados o mínimo possível, tanto pelas crianças quanto pelos adultos. Mas isso também não quer dizer que se possa deixar as crianças totalmente livres para desenharem tudo que elas quiserem e no tempo que elas quiserem. Falarei mais sobre isso no tópico abaixo.
Os Cuidados que se Devem Tomar
O primeiro cuidado que se deve tomar é com relação ao tempo em que as crianças desenham. Os pais e demais educadores não podem permitir que as crianças desenhem na hora que quiserem e quanto tempo elas quiserem. Deve-se ter horários específicos para se fazer cada coisa, isso ajudará a criança a ter disciplina e também mostrará que os educadores é que mandam nela. Não se pode permitir que a criança fique muito tempo desenhando, pois corre-se o risco da criança ficar com a imaginação totalmente solta para desenhar, e a imaginação ficar totalmente solta é ruim para a educação.
O segundo cuidado é com relação ao que a criança desenha. Os educadores devem sempre ver o que as crianças desenham. Se a maioria ou todas as coisas que ela desenha forem coisas que não existem, deve-se pedir a ela que desenhe mais coisas que existem, para que ela não fique “vivendo” somente num faz de contas em sua imaginação. E quando ela desenhar algo que exista, os pais podem ensinar coisas interessantes sobre essa coisa para ela, principalmente quando a criança for pequena. Se ela desenhar algo estranho ou perturbador os educadores devem imediatamente perguntar a criança o que é aquilo e porque ela desenhou aquilo, e assim agir de maneira adequada de acordo com o que a criança responder.
Também com relação ao que a criança está desenhando os educadores devem falar os erros desenhados e pintados pelas crianças quando elas desenham coisas que existem. Por exemplo, uma criança pinta o céu de verde, o educador deve dizer que está errado e que ela deve pintar o céu usando azul. Deve-se ensinar a realidade para ela. Busque dar para a criança, caso você tenha condições, lápis de cor de várias cores diferentes, para que ela sempre possa pintar as coisas com as cores que elas realmente tem. A Faber Castell tem excelentes kits de lápis de cor, mas compre de outras marcas, se você não tiver condições de comprar.
Um Excelente Sinal
Um Excelente sinal é quando a criança desenha Jesus, Nossa Senhora, algum santo, algum anjo, uma igreja, ou qualquer outra coisa relacionada especialmente a Deus. Isso muitas vezes pode ser sinal de que a criança está interessada pelas coisas de Deus, porque ela desenhou livremente.
Nestas situações, os educadores devem se alegrar e parabenizar com alegria a criança, e sempre a incentivar a desenhar Deus e tudo o que é relacionado mais a Ele.
Integrando Valores Católicos Através do Desenho Livre
O desenho livre pode ser uma ferramenta poderosa para transmitir valores católicos e desenvolver a espiritualidade infantil de maneira natural e alegre:
Desenho de amor, gratidão e aprendizado: Incentive seu filho a criar imagens de Deus Pai, de Jesus, do Espírito Santo, de Nossa Senhora, dos anjos e dos santos, de maneira especial dos santos que ela mais admira. Incentive ela a desenhar gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas, a representar histórias bíblicas de sua própria maneira, dentre outras coisas.
Respeito pela Criação de Cada Um: Use o desenho para ensinar caridade e respeito. Nunca compare negativamente os desenhos das crianças. Ensine que cada pessoa tem talentos únicos dados por Deus e que zombar do trabalho alheio é falta de caridade cristã.
Paciência e Perseverança: O desenho livre pode ajudar a ensinar virtudes essenciais. Quando um desenho “não sai como esperado”, é oportunidade para falar sobre paciência, sobre tentar novamente e sobre como Deus nos dá chances de recomeçar.
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Os Benefícios do Desenho Livre para o Desenvolvimento

Desenvolvimento Cognitivo e Resolução de Problemas
Quando seu filho desenha livremente, ele está constantemente tomando decisões: “Como vou representar esta árvore? Onde colocarei o sol? Como vou desenhar esta casa?” Cada traço é uma resolução de problema, uma hipótese testada no papel.
O desenvolvimento cognitivo através do desenho livre envolve:
- Memória e observação: Ao desenhar algo que viu ou vivenciou, a criança exercita a memória visual e a capacidade de observação detalhada do mundo
- Planejamento espacial: A criança aprende a organizar elementos no espaço do papel, desenvolvendo noções de proporção, distância e composição
- Pensamento simbólico: Ela compreende que um círculo pode representar um rosto, que linhas podem ser cabelos, desenvolvendo capacidade de abstração
Coordenação Motora Fina e Preparação para a Escrita
Segurar o lápis, controlar a pressão sobre o papel, fazer movimentos precisos – tudo isso são habilidades essenciais que o desenho livre desenvolve naturalmente. A coordenação motora fina construída através do desenho será fundamental não apenas para a escrita, mas para inúmeras atividades práticas da vida.
O Desenvolvimento do Grafismo Infantil
O traço das crianças muitas vezes evolui de forma previsível, refletindo seu amadurecimento cognitivo e motor. Existe um sistema que pode ajudar os educadores nesta questão. Mas atenção: o sistema abaixo não é infalível, não são todas as crianças que seguem este padrão.
- Garatuja (2-4 anos): Inicialmente desordenada, a criança experimenta o prazer do movimento e descobre a relação entre seu gesto e a marca no papel. Progressivamente surgem padrões circulares e linhas repetidas, até que começa a nomear seus rabiscos.
- Primeiras Representações (4-7 anos): Aparecem as tentativas de retratar a realidade. Pode surgir a figura “cabeça-pernas” – um círculo com traços saindo diretamente dele.
- Construção de Esquemas (7-9 anos): Os desenhos ganham organização espacial, com a famosa “linha de base” sustentando personagens e objetos. Surgem esquemas repetitivos para casas, árvores e pessoas, com mais detalhes e narrativas visuais estruturadas.
- Realismo Nascente (9-12 anos): Cresce a preocupação com proporções, detalhes e perspectiva, demonstrando pensamento mais observacional e autocrítico.
Esta classificação foi desenvolvida por Viktor Lowenfeld, educador e pesquisador austríaco que se tornou referência mundial nos estudos sobre expressão artística infantil.
Expressão Emocional e Autoconhecimento
Seu filho pode expressar medos, alegrias, frustrações e sonhos de maneira segura através do desenho. Para crianças que ainda não dominam completamente a linguagem verbal, o desenho é uma ferramenta poderosa de expressão emocional.
Muitos pais relatam descobrir aspectos da vida interior de seus filhos através de seus desenhos. Uma criança pode desenhar a família unida quando está feliz, ou usar cores escuras quando está triste. O desenho livre oferece uma janela para a alma infantil, permitindo que você compreenda melhor o mundo emocional do seu filho.
Como Incentivar o Desenho Livre em Casa: Estratégias Práticas
Crie um Espaço Acolhedor para a Arte
Seu filho não precisa de um ateliê profissional, mas sim de um cantinho bom para criar. Algumas sugestões práticas:
- Delimite uma área criativa: Pode ser um canto da sala, na varanda ou uma mesinha no quarto, por exemplo
- Proteja as superfícies: Use toalhas plásticas ou papelão sob o papel de desenho
- Mantenha materiais acessíveis: Organize lápis, giz de cera, canetinhas e papéis em caixas que seu filho alcance sozinho
Ofereça Materiais Diversos e de Qualidade, se Possível
A variedade de materiais estimula diferentes experiências sensoriais e criativas. Não se trata de comprar o mais caro, mas sim de oferecer diversidade:
- Lápis de cor: Permitem traços precisos e controle de pressão
- Giz de cera: Ideais para crianças menores, cobrem grandes áreas rapidamente
- Canetinhas: Oferecem cores vibrantes e traços uniformes
- Tintas laváveis: Proporcionam experiência tátil mais intensa
- Papéis variados: Sulfite, cartolina, papel kraft, cada um oferece textura diferente
Um Kit de Artes Criativas, com materiais seguros e adequados à idade, pode ser um bom investimento para o seu filho.
Pronto Para Transformar Rabiscos em Momentos de Conexão?
O desenho livre pode ser muito mais que uma atividade para “ocupar as crianças”. Pode ser uma ferramenta poderosa para ensinar valores eternos, uma forma de expressão emocional, um exercício cognitivo e motor. Quando você oferece a seu filho tempo adequado, espaço e materiais para desenhar livremente, está investindo em sua inteligência e em sua criatividade.
Separe papel e lápis. Sente-se ao lado do seu filho. E deixe que ele guie você pele sua inteligência e imaginação, mas sempre tenha moderação e cuidado, como eu indiquei anteriormente no artigo.

